Isto é uma resposta ao sentimento nacionalista português, da parte de um federalista português.
Sou um federalista, sim, mas não um federalista incondicional.
A existência de Portugal centra-se precisamente na ideia da nossa independência da Espanha, bem como da nossa capacidade de mostrar ao mundo que somos capazes de sobreviver sozinhos, e de cumprir grandes feitos sozinhos, sem pertencer à Espanha. Não só fomos capazes de preservar a nossa independência durante quase toda a nossa história, como também fomos capazes de explorar e colonizar partes do mundo nas quais hoje habitam, no total, mais de 250 milhões de pessoas.
A ideia de uma Federação Ibérica encontra resistência em Portugal precisamente porque implica o fim da nossa independência (da pouca que nos resta). E quais são as consequências que o público português teme? A perda da nossa identidade nacional, o declínio da língua portuguesa, a submissão aos interesses nacionais espanhóis e a impossibilidade de tomar decisões políticas em prol dos interesses do povo português. Eu sei, porque já tive esse mesmo medo. Mas senhores, lembrem-se, por favor, que a nossa submissão JÁ É um suplício bem real, e não é aos interesses da Espanha: é aos interesses da União Europeia, dos Estados Unidos da América e da China.
O meu ponto de partida, em termos de ideologia, foi o desconhecimento quase absoluto da Espanha, e esse desconhecimento foi-se transformando em medo à medida que eu via que Portugal estava numa posição de desvantagem perante a Espanha, que exercia uma certa hegemonia económica sobre nós, algo de que eu me apercebia quando ouvia falar de portugueses que se viam obrigados a comprar coisas como medicamentos e combustível do outro lado da fronteira porque cá era muito caro. Sim, eu já fui contra a ideia de uma união política com a Espanha, precisamente porque amo o meu país, porque era frustrante não compreender porque é que a vida em Portugal estava tão difícil, e porque gostaria de poder fazer algo para melhorar a vida em Portugal em geral… E incomodava-me muito, muito mesmo, ouvir pessoas dizer que tinham vergonha de serem portuguesas. Em última análise, eu queria exigir respeito por Portugal, queria que os portugueses pudessem sentir orgulho naquilo que são.
Portugal não é, nem nunca será, uma posse legítima da Espanha.
Nem é isso o que o iberismo pretende. Porque se Portugal deve abdicar da sua independência para formar uma Federação Ibérica, então a Espanha também terá de abdicar da sua independência. Não esqueçamos isso. E a verdade é que, se uma hipotética união política entre os nossos países não for bem planeada e bem executada, então eles têm ainda mais a perder do que nós.
Deixemos claramente definidos dois conceitos fundamentais: anexionismo e federalismo. Anexionismo significa que um país deseja conquistar outro país e impor sobre ele as condições que bem entender. A ideia, por exemplo, de uma Espanha, uma Hispania, ou mesmo uma Ibéria, que “engula” Portugal e que não nos reconheça como uma cultura distinta, que obrigue os portugueses a adoptar o castelhano como a principal (ou única!) língua oficial no território português, que nos obrigue a hastear a bandeira espanhola tornando ilegal a portuguesa, que nos imponha condições económicas desfavoráveis, que nos obrigue a pagar mais impostos do que podemos pagar, ou num caso extremo (e francamente anacrónico) que obrigue os nossos soldados a partir para combater lá longe em guerras que de outro modo não envolveriam Portugal: isso é anexionismo. Isso é o que eu rejeito. Isso é o que todo o iberismo rejeita mais do que qualquer outro movimento político. Os iberistas espanhóis são LUSISTAS, adoram Portugal, e eles próprios não querem uma união que seja injusta para nós. Os iberistas espanhóis são, aliás, de todos os espanhóis os que mais gostam de Portugal.
“Federalismo ibérico” significa: Portugal e a Espanha formam um novo país, não unitário, mas federal. As duas bandeiras são hasteadas lado a lado, com uma nova bandeira ibérica no meio. Portugal continua a ter o português como língua oficial primária, aprendendo castelhano apenas quem optar por fazê-lo. Deixamos de ser “a concorrência” um do outro. Portugal torna-se uma parte do sistema fiscal ibérico, o que significa que em vez de estarmos reduzidos aos investimentos dos economistas espanhóis, os impostos que os espanhóis pagam também nos beneficiarão a nós. E o que eles têm a ganhar a troco disso é que nós seremos uma ponte para potenciar o comércio espanhol com todo o mundo lusófono (especialmente no continente africano, onde o único país hispanofalante é a Guiné Equatorial), atraindo mais crescimento também para a Espanha.
Os iberistas espanhóis sabem aquilo que todos temos a ganhar com uma Federação Ibérica, criada apenas quando tiver sido executada toda a preparação necessária, e que não é um projecto que vai ser realizado da noite para o dia. O que caracteriza a principal corrente do sentimento iberista, na Espanha, é a integração gradual dos dois países, ou o que se entende como “confederação de estados como etapa prévia ao federalismo”, ou seja, uma aproximação gradual dos dois países, em passos muito pequenos, para maximizar a cooperação e contribuir para melhorar as relações diplomáticas. Sem esses passos, a federação não é nem possível nem desejável. Eu sou federalista, sim, mas não incondicionalmente, e certamente não a favor de uma federação feita “às três pancadas”. E nós que somos iberistas devemos falar, uns com os outros, de encontrar o ritmo certo, ou seja, o equilíbrio que um dia permita a federação (se os povos dos nossos países assim quiserem). Independentemente de essa federação vir a tornar-se realidade ou não no futuro, teremos mesmo assim melhorado muitíssimo a situação dos nossos países.
Os iberistas espanhóis não colocam – enfatizo, não colocam – Portugal ao mesmo nível do que uma comunidade autónoma espanhola, nem tão-pouco apoiam a dissolução dos estados portugueses ou espanhóis na primeira etapa. Essa é a última etapa da criação da Federação Ibérica. Não se pode, como se diz na Espanha, “construir uma casa começando pelo telhado”. Já ouvi iberistas referir, e concordei, que deverá ser realizado um referendo nos três países (não esquecendo Andorra), condicionando a criação da Federação por um resultado mínimo de 2/3 (ou 67%) de votos a favor, para que dessa forma fique clara a vontade dos povos dos nossos países.
Este é o meu desejo porque uma Federação Ibérica, com aproximadamente 56 milhões de habitantes, é a soma de todas as capacidades económicas, militares e culturais dos nossos países. O que é que isso significa? Significa mais influência sobre o resto do mundo, mais poder de negociação, menos vulnerabilidade a quaisquer futuras medidas de austeridade da União Europeia; em suma, mais respeito da parte do resto do mundo. Significa que a nossa economia passa a estar ao nível da economia da Itália – e a Itália faz parte do G8.
Se queremos fazer alguma diferença no contexto do mundo globalizado de hoje, então temos de ter em conta que a única coisa que interessa a esse mundo globalizado são os números. Os países pequenos não têm voto na matéria, não tomam as grandes decisões do mundo, e estão limitados às decisões que forem tomadas pelos países mais fortes. E é nisso que eu vejo a principal diferença entre mim, como federalista, e qualquer nacionalista de qualquer parte da Península Ibérica.
O adversário dos nacionalistas portugueses, galegos, leoneses, catalães, bascos, andaluzes, etc. é “Castela”, com talvez pouco mais de 10 milhões de habitantes na sua definição mais estrita. Os adversários dos nacionalistas espanhóis são todos aqueles acima referidos, com números comparáveis.
O universo da minha ideologia tem a escala dos mais de 1300 milhões da China e da Índia (cada uma!), dos 510 da União Europeia, dos 324 da América, dos 263 da Indonésia, dos 207 do Brasil, dos mais de 190 do Paquistão e da Nigéria cada um, dos 162 do Bangladesh, dos 146 da Rússia, dos mais de 120 do Japão e do México cada um, dos mais de 100 da Etiópia e das Filipinas, dos mais de 90 do Egipto e do Vietname, e dos mais de 80 do Congo, do Irão, da Turquia e da Alemanha.
A ESPANHA TEM MENOS DE 1% DA POPULAÇÃO MUNDIAL.
Mas a Itália também, e a Itália pelo menos está no G8.
Portanto porque é que continuamos a perder tempo, a queimar as energias uns aos outros, com discussões fúteis? Porque é que não somos capazes de ver que enquanto estivermos ocupados a lutar uns contra os outros, todos os outros países ganham uma vantagem cada vez maior sobre nós? Cada um daqueles gigantes passa o tempo a rir-se de países como os nossos precisamente porque sabe que nós, divididos, nunca seremos um adversário à sua altura.
É esse o resultado de qualquer sentimento nacionalista, secessionista, separatista ou divisionista. E é esse também o resultado do mesmo conformismo que nos torna dependentes dos fundos estruturais da União Europeia, dos investimentos chineses a troco de benefícios económicos para eles, e das forças armadas americanas no cenário hipotético de uma ameaça militar contra nós. Se acontecer alguma coisa, vêm os americanos proteger-nos! Se ficarmos falidos, vêm os chineses comprar-nos a dívida e os europeus dar-nos fundos estruturais! Mas já parámos alguma vez para pensar em tudo aquilo que estamos a conceder a troco dessas condições? E ainda queremos dar-nos ao luxo de acreditar que Portugal e a Espanha, hoje, são realmente países independentes e soberanos, com tanta da sua soberania já vendida e concedida àqueles gigantes? Não. Não são.
O federalismo, pelo menos, propõe uma alternativa que nos permita continuar a ser competitivos à escala global, que nos torne menos vulneráveis aos caprichos do resto do mundo, e que imponha pelo menos algum respeito nos três campos que são o poder económico, o poder militar e a celebração de todas as culturas ibéricas.
E há outra coisa que me preocupa ainda mais do que tudo isto.
O eurocepticismo está em crescimento por toda a Europa. Apesar das recentes medidas de austeridade, a União Europeia já fez muito por nós e pela Espanha, mas com tantas vozes pela Europa fora a desejar abandonar a União Europeia, não podemos tomar como garantida a continuação da existência da União Europeia. Portanto, uma das principais preocupações dos iberistas será a de procurar melhorar a cooperação entre os nossos países de modo a que sejam implementados planos de contingência para prevenir o hipotético fim da União Europeia. Ou seja, definir claramente tudo aquilo que ganhámos graças à União Europeia e alcançar acordos para preservar tanto disso quanto possível se um dia a União Europeia falhar e acabar. De igual modo, deveríamos identificar também aquilo que nos prejudica e deixar isso para trás.
Por exemplo, a nossa fronteira com a Espanha não deveria fechar. Isso seria negativo tanto para a nossa economia como para a deles. De igual modo, não faz sentido que os portugueses e os espanhóis voltassem a precisar de ter vistos para trabalhar e viver nos países um do outro. O ensino das línguas um do outro nos nossos países também deveria continuar. A criação de condições favoráveis aos negócios e investimentos entre os nossos países, a colaboração em matérias de segurança e defesa, a negociação de acordos com vista à preservação do meio ambiente: há muitas lições a extrair da nossa adesão à União Europeia, lições que teremos de continuar a pôr em prática independentemente do que possa acontecer à União Europeia.
Um exemplo de uma medida europeia que, na minha opinião pessoal, prejudica mais a Espanha e Portugal do que ajuda é a existência de uma moeda única para todo o espaço europeu. Já há muito tempo que defendo a ideia de uniões monetárias a escalas mais pequenas, como por exemplo: Portugal e a Espanha, os Países Baixos e a Bélgica, a República Checa e a Eslováquia, os cinco países do Conselho Nórdico, os países bálticos, etc. porque aquelas combinações de países são caracterizadas por condições económicas e políticas semelhantes, não existindo a brutal disparidade entre, por exemplo, Portugal e a Alemanha. Portanto, eu seria a favor de uma moeda única apenas entre os estados ibéricos, ou entre os países europeus mediterrânicos, que não tornasse a economia portuguesa tão dependente do resto da Europa.
Por isso temos de começar a adoptar uma perspectiva diferente para com os vizinhos uns dos outros. A China, a América e a Alemanha são realidades quase abstractas comparadas com as pessoas cujas caras vemos na rua, praticamente todos os dias. Os espanhóis têm mais em comum connosco (e nós com eles) do que qualquer outro país neste planeta.
Infelizmente nesta vida as pessoas que nós mais tendemos a magoar são as pessoas mais próximas de nós. E isso aplica-se ao plano familiar, ao plano das relações afectivas, e também ao plano das relações diplomáticas. O vizinho é tanto o maior potencial amigo como o maior potencial inimigo. Portanto é precisamente com quem mais perto está de nós que nós temos de fazer por nos entendermos, não com aqueles que estão longe, que parecem afectar tanto as nossas vidas, e que praticamente nunca vemos.
Eu já fui abertamente contra a ideia de uma “união ibérica”.
E só com o tempo, com a experiência de ir conhecendo e convivendo com centenas e centenas de espanhóis, só assim me pude ir apercebendo das semelhanças entre nós: as semelhanças na língua, no raciocínio, no carácter, na história, até mesmo nos receios.
E só assim consegui perceber que, na Espanha, as pessoas que mais gostam de Portugal são precisamente os iberistas espanhóis, e que eles são quem mais quer que uma hipotética união entre nós não nos submeta a condições injustas.
E é por isso que hoje o meu lema é:
PARAR DE INSISTIR NAS DIFERENÇAS, PASSAR A INSISTIR NAS SEMELHANÇAS.

João Pedro Baltazar Lázaro

 

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